7 de agosto de 2014 / Leitura
História é minha matéria preferida e a Segunda Guerra Mundial é um assunto que sempre me fascinou; seja por causa da guerra em si, por questões políticas, estratégias de guerra ou raízes familiares. Estou sempre procurando documentários sobre o assunto e livros do tipo. Quando vi a capa – de novo minha paixão por capas marcando presença – de “Ele está de volta” e li a sinopse interessantíssima, fiquei muito ansiosa para ler o livro.
“Berlim, 2011. Adolf Hitler acorda num terreno baldio. Vivo. As coisas mudaram: não há mais Eva Braun, nem partido nazista, nem guerra. Hitler mal pode identificar sua amada pátria, infestada de imigrantes e governada por uma mulher. As pessoas, claro, o reconhecem — como um imitador talentoso que se recusa a sair do personagem. Até que o impensável acontece: o discurso de Hitler torna-se um viral, um campeão de audiência no YouTube, ele ganha o próprio programa de televisão e todos querem ouvi-lo. Tudo isso enquanto tenta convencer as pessoas de que sim, ele é realmente quem diz ser, e, sim, ele quer mesmo dizer o que está dizendo. Ele está de volta é uma sátira mordaz sobre a sociedade contemporânea governada pela mídia. Uma história bizarramente inteligente, bizarramente engraçada e bizarramente plausível contada pela perspectiva de um personagem repulsivo, carismático e até mesmo ridículo, mas indiscutivelmente marcante.”
unnamed
            A ideia de que Hitler não tivesse morrido e “voltasse” nos dias atuais foi fantástica. Quando a narrativa começa, você pode quase sentir um arrepio ao pensar no que tudo aquilo poderia significar hoje, quando tudo parece estar pendurado por um fio. A maneira fria e calculista na qual o personagem começa a analisar o que deveria fazer a partir dali correspondeu às minhas expectativas. O modo como ele lida com a situação fugiu aos clichês dos livros desse estilo.
            A narrativa já começa com uma das principais características de Hitler: o pensamento militar e extremamente estratégico. Logo de cara o personagem procura as maneiras mais inteligentes e adequadas para entender o que está acontecendo e em que pé está a guerra. Quando descobre que a guerra acabou há décadas, ele fica um pouco desnorteado e muito confuso.
            Uma das coisas que mais chama a atenção é como “Hitler” descreve cenas do cotidiano aparentemente comuns e que de alguma forma lhe são estranhas e o incomodam. Algumas vezes ele se prende ao “absurdo” de ver uma típica cidadã alemã passeando com seu cachorro e recolhendo com uma sacola plástica as fezes do bichinho. Basicamente, tudo vira motivo para uma longa e dura reflexão. Imaginava algo bem parecido com isso vindo dessa figura histórica.
            O personagem de Hitler é extremamente calculista e inteligente, sem nunca abandonar o linguajar e os hábitos militares. Ele está constantemente pensando em táticas de guerra ou situações que na época do conflito mundial poderiam ter sido mais aproveitadas. É um estrategista nato. Como era de se esperar de uma história narrada em primeira pessoa por um suposto Hitler, sua visão é bem megalomaníaca. Além de ser um personagem muito caricaturado. Todos os estereótipos construídos sobre Hitler estão concentrados em seu modo de pensar, agir e falar. Sua oratória e retórica é muito bem construída pelo autor.
unnamed (1)
            “Hitler” se vê como um herói, um salvador da pátria e crê que precisa retomar o poder para colocar a Alemanha de volta nos trilhos de uma vez por todas. Para ele, tudo anda muito confuso e fora de ordem; o país precisa de um punho firme e de um salvador a altura. A história gira em torno de sua tentativa de ser levado a sério e de suas reflexões a respeito da Alemanha atual. Ao longo de seus pensamentos fica clara a crítica ao modo de vida atual. As pessoas são superficiais e dão valor àquilo que, a seu ver, é desnecessário e supérfluo. A sociedade como um todo se tornou muito acomodada e sem determinação. Além disso, sua frustração está sempre presente e, é claro, seu ufanismo aparece em todos os seus discursos.
            O personagem é extremamente irônico, seja em seus pensamentos ou durante seus diálogos. Os diálogos, por sinal, são engraçados. Ninguém leva a sério “Hitler” e tudo o que o personagem diz gera alguma confusão ou algum mal entendido. As conversas são cômicas, parecem mostrar um velho ranzinza discutindo com jovens irritantes. É um conflito de gerações gritante.
            “Hitler” narra a história de uma maneira extremamente convincente. Tive que me relembrar algumas vezes de que não era o próprio Hitler que pregava tudo aquilo tamanha a inteligência do autor. As referências, aliás, são incríveis. Os nomes daqueles que participaram de alguma forma na vida do verdadeiro Hitler, os lugares nos quais o tirano visitou, as datas, eventos e até a Academia de Belas-Artes de Viena é citada em algum momento da narrativa. As referências parecem ter sido muito bem pesquisadas e dão consistência para a narrativa. Claro que não se pode levar tudo ao pé da letra, é uma história fictícia e, apesar de ter sido baseada em fatos reais, não pode ser usada como base histórica verídica.
unnamed (2)
            Algo que aparece algumas vezes durante a história e merece ser discutido, é a marca deixada pelo nazismo na sociedade alemã. Quando “Hitler” surge como um suposto comediante, nem todos acham muito engraçado seus discursos e comentários sobre os estrangeiros e sobre o governo atual. Alguns conflitos durante a narrativa demonstram como o povo alemão nunca irá esquecer aquilo que a intolerância nazista plantou.
            Certas coisas me incomodaram na história. Apesar de achar fascinante a maneira como o autor conseguiu trabalhar bem os pensamentos de “Hitler”, gostaria de ter visto mais diálogos e ações do mesmo. Hitler é conhecido por sua oratória incrível e retórica convidativa e isso não foi muito bem trabalhado no livro. Além disso, fiquei com a impressão de que deveria ter mais história, senti que ficou faltando alguma coisa. Confesso que esperava uma história diferente, com um final diferente também, mas enquanto lia, percebi que o que eu tinha em mente não era bem o objetivo do autor. “Hitler” faz uma crítica à mídia contemporânea, à sociedade atual (não apenas a alemã) e isso ele faz muito bem. Mesmo assim, como sou uma pessoa curiosa, senti falta de algumas respostas, de alguns momentos que precisavam ser mais bem explorados. A minha impressão final foi a de que “Ele está de volta” é uma introdução a uma história maior, a uma crítica maior, mas que não apareceu muito claramente.
            O livro ganha nas referências muito bem escritas, no personagem carismático, no clima da história; além de ser uma narrativa extremamente inteligente. A leitura é fácil, leve e rápida também.

Ele está de volta foi escrito por Timur Vermes e publicado no Brasil pela editora Intrínseca..

 

Classificação: 3/5 estrelas.

 

“Pode-se imaginar que eu tinha muito a fazer: derrotar os americanos no Ocidente, defender a Alemanha dos russos no Oriente, garantir o progresso no planejamento urbano da capital mundial, a Germânia, e assim por diante, mas o exército alemão acabou ignorando o restante das maçanetas, segundo minha avaliação. E, por esse motivo, esse povo não poderia nem mesmo continuar a existir.

Porém, e posso confirmar isso agora, ele ainda está aí.

Para mim, isso é algo um tanto incompreensível.

Por outro lado, eu também estou aqui, o que é ainda menos compreensível.”

laura


Bruna Alecrim

1 Comment

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *