1 de junho de 2015 / Textos

uma chama de inverno

O inverno daquele ano havia chegado de forma rigorosa. A lua cumpria seu papel e prateava aquela noite assustadoramente negra. Pequenos pontinhos brancos caíam do céu e se encaixavam em tudo o que estivesse ao seu alcance pintando a paisagem. A temperatura parecia cair cada vez mais. O asfalto estava coberto de gelo e as casas mal podiam ser vistas por baixo do grosso manto de neve.

Ele estava no seu lugar de sempre, escolhido entre jornais, papelão e alguns trapos que um dia foram considerados cobertores. Há algumas semanas havia encontrado esse shopping center a céu aberto e tomou pra si um beco coberto entre duas lojas; uma de ferramentas, outra de cosméticos. Todo dia prometia a si mesmo que encontraria outro lugar, mas parecia que o inverno não perdoava e cada vez que a noite chegava perdia a coragem de sair dali. Já havia desistido de encontrar um abrigo que o aceitasse, nessa época do ano não havia mais nem uma única cama disponível e as filas para uma noite também estavam longe de serem animadoras. Aquele era seu canto no mundo, feio, precário e esquecido, mas ainda assim era seu canto.

Ajeitou seus trapos e se encolheu quando viu os flocos de neve caindo do céu. Seria mais uma noite daquelas, pensou. Não era muito tarde ainda, mas o fluxo de pessoas que estavam passeando ali estava surpreendente. Podia ouvir risadas e trechos de conversas banais.

As pessoas que passavam por ele apressavam o passo com medo e desconfiança, mas não as julgava, também sentiria um certo desconforto se não fosse ele naquela situação. Não se sentiu incomodado, só queria um lugar para descansar um pouco e não pensar no que faria no dia seguinte. Assim que se sentiu razoavelmente confortável, seu estômago roncou alto e ele se permitiu murmurar uma reclamação alta.

Uma mulher muito bem vestida e devidamente agasalhada passou por ele e, assim como os outros, andou mais rápido. Nem se deu ao trabalho de prestar atenção em suas feições, as pessoas eram como sombras que passavam por ele. Como se nunca pudesse tocá-las, tampouco pertencer ao mesmo mundo que elas.

Tentando esquecer o frio e a fome, se obrigou a dormir um pouco, talvez quando abrisse os olhos estaria tudo um pouco menos pior. Como não podia contar com a chegada da primavera tão cedo, tinha a esperança de que quando abrisse os olhos seria acordado com a luz do sol aquecendo sua pele e driblando um pouco o inverno.

Algum tempo depois foi acordado com o barulho de passos desajeitados. Droga, ainda não era dia, pensou com desprezo. Ergueu o rosto buscando o ruído e tentou distinguir com olhos cansados os contornos da pessoa que andava em sua direção. Reconheceu a mulher que havia passado por ele por causa de suas roupas escuras que pareciam ser muito quentes e confortáveis, lembrava de ter pensado. Ela carregava várias sacolas nos braços enquanto tentava se equilibrar nos saltos que definitivamente pareciam caros. Por alguns segundos considerou a hipótese de ajudá-la, mas teria que sair de seu canto e temia que ela fosse gritar ou agredi-lo se chegasse perto demais. Estava enganado.

Chegando perto dele, a mulher se agachou e, apesar do frio congelante, deu um sorriso capaz de aquecê-lo de dentro para fora. Ela tinha um sorriso bonito, pensou.

– Boa noite, senhor, desculpe incomodá-lo. Não é muito, mas espero que seja do seu agrado. A noite de hoje está castigando de verdade. – Com isso ela se levantou, sorriu novamente e se afastou, dessa vez andando de maneira mais segura.

Ele abriu as sacolas e arfou surpreso. Não pôde deixar de olhar em volta para ver se havia algo errado. Ela havia lhe dado dois novos e espessos cobertores, várias meias que pareciam bem resistentes, um casaco preto bem grosso, luvas de couro e dois gorros. Ao abrir as outras sacolas quase queimou a mão com as embalagens quentes de sopa e café.

Não esperou nem um segundo para atacar o primeiro pote de sopa, nem se importou em queimar os lábios. Encontrou na sacola de comida algumas fatias de pão e quase gemeu de satisfação. Estava louco para vestir o novo casaco e se encolher nos cobertores, mas o frio teria que esperar, aquilo estava bom demais. Depois de se esbanjar com a comida e se deliciar com o café, arrumou seu canto da melhor maneira possível e se sentiu satisfeito ao deitar. Não se sentia assim há muito tempo.

Os flocos de neve continuavam caindo e ele deixou sua mente vagar pelo inverno. Que engraçado, ele pensou. “Não é muito”, ela havia dito, mas para ele ela havia dado tudo.

Post original em Nostalgia Cinza.

Escrevi esse conto para uma prova da faculdade e decidi postar aqui. O que achou? Gostou do conto? Já escreveu algum parecido? Não deixe de comentar!


Gostou do post? Compartilhe com suas amigas e ajude a espalhar o EA por aí!

INSTAGRAM // TWITTER // FACEBOOK // TUMBLR


Bruna Alecrim

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *