11 de julho de 2015 / Leitura

História sempre foi a minha matéria preferida, principalmente quando tinha que estudar as guerras. A Segunda Guerra sempre foi um assunto que me fascinou bastante e ficava bastante curiosa a respeito da participação do Brasil no conflito já que era um tanto quanto contraditória. A Segunda Pátria oferece uma visão oposta da realidade e conta histórias que poderiam ser – assustadoramente – reais se o Brasil tivesse entrado na guerra ao lado dos nazistas.

a segunda pátria

“Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Getúlio Vargas resolve se tornar um aliado do Terceiro Reich. No cenário alternativo criado por Miguel Sanches Neto, o país se alinha ao Eixo e, como parte do acordo, é estabelecido que os estados do sul, com grande presença de descendentes de alemães, podem pôr em prática os princípios do nazismo, como o racismo, o antissemitismo e a eugenia. Em Blumenau, à medida que a saudação Heil Hitler se torna corriqueira, o engenheiro Adolpho Ventura convive atônito com o progressivo cerceamento de sua liberdade. Seu crime é ser negro e pai de uma criança mestiça. Na mesma cidade, desenrola-se a trajetória de Hertha, jovem sedutora que encarna todos os predicados da superioridade ariana. A ela é confiada uma misteriosa missão. Com violência e sensualidade, o autor revela uma paixão proibida, enquanto subverte os fatos para criar um Brasil que não está nos livros de história mas nem por isso deixa de ser assustadoramente plausível.”

Durante a Segunda Guerra, o Brasil se apresentou de forma neutra, não se envolvendo diretamente nem com o Eixo nem com os Aliados. Mas ao mesmo tempo em que o país concedia empréstimos aos Estados Unidos, não era nenhum segredo que Vargas tinha certa “afinidade” com os ideais totalitários do nazi-fascismo. Mussolini chegou a enviar uma carta parabenizando Vargas pelo décimo aniversário de sua chegada ao poder. Entretanto, por conta de negociações com os americanos e alguns supostos ataques alemães a navios brasileiros, o Brasil entrou na guerra ao lado dos Aliados. O que poderia ter acontecido se o contrário tivesse acontecido? E se o Brasil tivesse decidido apoiar o Eixo?

A Segunda Pátria começa contando a história de Adolpho Ventura, um negro que se sente tão alemão quanto um ariano puríssimo. É fluente na língua, leitor voraz e fiel à saudação Heil Hitler. Sempre se dedicou às tradições germânicas e de repente se vê como alvo de ódio, injustiça e perseguição por aqueles que sempre admirou e considerou como iguais. Sua vida é virada de cabeça para baixo e é tido como desonra em seu próprio país.

Herta é “a mais bela alemã do Brasil”, jovem, sedutora e possui tudo os atributos esperados de uma ariana perfeita. Nunca escondeu sua sensualidade, faz até questão de mostrar seus dons. É justamente a sua maneira de encantar todos ao seu redor que lhe é confiada uma missão que mudará sua vida inteira.

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Miguel Sanches Neto conta a história de um Brasil simpático ao nazismo e perseguidor de uma maioria negra e mestiça. É incrível como a sua maneira de descrever os fatos com personagens históricos capta o leitor ao ponto de se questionar sr aquilo poderia ter acontecido mesmo ou não. A leitura possui características de narrativas históricas e é exatamente esse caráter plausível que prende quem lê.

A violência é recorrente, em nenhum momento o autor tenta amaciar a história. O leitor é tirado de sua zona de conforto ao perceber como um país considerado acolhedor de todos os povos e culturas pode se voltar contra os seus. Não somos presenteados com um romance de época ou algo tranquilizador, A Segunda Pátria não é nada como um conto de fadas.

O Brasil, apesar de estar sempre de braços abertos para outas nações, é bastante preconceituoso. Em A Segunda Pátria isso é somado à admiração de Getúlio pelos ideais germânicos e da pré-disposição de se submeter a uma “raça superior”.

A participação de figuras históricas conhecidas descritas por Miguel Sanches é surpreendente. Sua descrição de Getúlio Vargas e Gregório Fortunato me fez parar por um momento e imaginar se aquilo que eu estava lendo não podia mesmo ser real. O que mais me impressionou no livro foi justamente isso, a capacidade do autor de contar histórias absolutamente plausíveis de terem acontecido se a participação do Brasil na Segunda Guerra tivesse sido diferente. A única figura histórica que me decepcionou um pouco foi Hitler, gostaria de ter lido uma visão um pouco diferente.

Adorei ler algo de um escritor brasileiro de forma tão nova e bem feita, acho sempre válido incentivar a leitura de exemplares nacionais. A Segunda Pátria é essencial para quem ama história e vive perguntando “e se?” pra tudo. É uma leitura que tira o leitor da zona de conforto, coloca em cheque a lealdade a uma pátria e sentimentos profundos. É uma ficção inteligente, bem estruturada e diferente.

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A Segunda Pátria foi escrito por Miguel Sanches Neto e publicado pela editora Intrínseca.

Classificação: 4/5 estrelas.

“Neste exato momento o Führer faz um longo discurso no Centro da cidade, que nós transmitimos aos ouvintes da Rádio Porto-Alegrense: ‘(…) este é um grande país, e um destino de glória o aguarda. Mas para isso é preciso fazer acordar as forças das raças puras, evitar a mistura de sangue. Há aqui um grande perigo: parte da população está ficando cada vez mais escurecida. E vocês que estão na região mais ariana do país, vocês têm um papel importante. Os judeus, esses nossos inimigos hereditários, querem que o Brasil seja nego, porque os judeus agem sorrateiramente para nos destruir. É preciso que o Brasil resista. É preciso que o Brasil seja dos brancos e não dos inferiores. A contaminação racial é um crime, um crime cometido contra o futuro. E não há nada com o qual tenhamos mais responsabilidade do que com o futuro. Todos dizem que o Sul do Brasil é também uma área europeia. Vocês querem ser iguais à Africa ou querem continuar ligados à Alemanha? Não se deixem estragar. Não tenham piedade de quem quer nos corromper. Esta parte do país nasceu para ser grande, nasceu para ser branca…

Resenha original no blog Nostalgia Cinza.

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Bruna Alecrim

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