18 de setembro de 2015 / Conversa de banheiro Textos

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O ser humano é feito de lembranças, experiências, aprendizados. Possuímos um cérebro que consegue armazenar tudo aquilo que julgamos ser importante para nossa vida. Imagina que terrível seria se a gente simplesmente perdesse as nossas memórias? Esquecêssemos quem são nossos parentes, esquecer completamente de dias especiais, esquecer onde fica cada cômodo da nossa casa…. Bem, isso acontece, infelizmente.

Semana passada eu e meu pai assistimos o filme “Para Sempre Alice”, que rendeu o oscar de melhor atriz para Julianne Moore (para quem não sabe, o filme mostra o dia a dia de Alice, uma professora universitária que descobre sofrer de Alzheimer precoce). Terminamos eu e ele chorando, mas não por ser um filme triste, mas porque nós dois lembramos do meu avô, que sofria da mesma doença e faleceu há alguns anos.

Eu era bem nova quando descobriram a doença do meu avô, não entendia muito bem o que era aquilo e porque ele tinha aquela doença, eu só sabia que ele esquecia das coisas com maior frequência. Ninguém nunca sentou e explicou pra gente, os netos mais novos, o que era aquilo, porque acontecia, como isso afetaria as nossas vidas e coisas do tipo, eu só sabia o que ouvia de algumas conversas entre meus pais e tios, e das poucas perguntas que tinha coragem de perguntar.

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No início eu não percebia os sinais e achava que meu avô não tinha nada de errado. Pra quem é criança, doença só é doença de verdade se te deixa abatido, magrelo e fraco, então, pra mim, a doença do meu avô era ainda mais dificil de entender. Porque era assim, meu avô era fisicamente super saudável, mas lá no cérebro, as coisas estavam indo de mal a pior. Primeiro ele não lembrava compromissos, depois datas… Passou a usar fraldas na hora de dormir porque não encontrava o banheiro de noite e fazia xixi nas calças… Adquiriu manias engraçadas, tipo a mania de economizar: passou a desligar todos os eletrodomésticos da tomada antes de dormir (sim, até a geladeira e o congelador, com todas as comidas dentro); desligava as luzes de todos os cômodos, independente se tinha ou não alguém dentro; quando tinha promoção no supermercado, comprava em excesso (comprava uma quantidade tão grande que perdia antes de consumir a metade) e por ai vai.

Passou a confundir o presente com o passado, ele não aceitava que morava em Goiânia, na cabeça dele, ele estava ainda em Patos de Minas, a cidade que ele nasceu e cresceu. Jurava que ainda tinha imóveis que já havia vendido há anos (e brigava com todo mundo por causa disso, era preciso mostrar os documentos da venda e mesmo assim ele não aceitava), achava que parentes já falecidos ainda estavam vivos… basicamente, a cabeça dele voltou a viver a juventude dele.

Por fim, ele passou a esquecer as pessoas… Não me lembro de quem ele esqueceu, mas nesse ponto da doença eu tive uma experiência muito marcante com meu avô: eu cheguei na casa dele e da minha avó para o (sagrado) almoço de domingo em família, ele me cumprimentou “Oi, bruninha! Deus te abençoe” e começou a brincar comigo de bater um na mão do outro. Depois de um tempo, eu fui fazer alguma outra coisa e ouvi meu avô questionando minha avó sobre qual era o meu parentesco com ele, “A Bruna é minha sobrinha?”, ouvi ele perguntando. Acho que só nesse ponto, percebi o quão séria, devastadora e triste essa doença é.

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Por fim, meu avô morreu. Mesmo nos estágios mais avançados da doença ele manteve toda a alegria que sempre teve, sempre fazendo piadas (as vezes repetia a mesma piada a cada hora, porque esquecia que já tinha contado) e brincando com todo mundo e é isso que eu mais guardo dele, o carinho e o bom humor que ele sempre teve comigo.

É muito doído lembrar disso tudo, mas depois de assistir à atuação pura e tão real da Julianne Moore (eu e meu pai identificamos tantas coisas que meu avô fazia), acabei precisando escrever tudo isso, colocar para fora o que guardei por tantos anos. Para quem está passando pela mesma situação, deixo aqui alguns recados: seja paciente, não é culpa da pessoa ela não se lembrar das coisas, não desconte suas frustações nela. Se aproxime, fique o máximo de tempo possível com essa pessoa, ao contrário do que todo mundo pensa, eles não querem se isolar, é só ter alguém com quem conversar que eles vão contar todas as aventuras que tiveram quando jovens. Por fim, aceite a doença que a pessoa tem, não tente fingir que está tudo bem, que não é grande coisa, quem está passando por isso precisa de ajuda e muito amor.


 

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Bruna Alecrim

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