4 de março de 2016 / Blogueira Textos

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No final de novembro de 2015, fui contratada por um estudante de jornalismo para fazer alguns registros para o TCC dele. O tema era relacionado a cooperativas de lixo, para quem não sabe, são lugares onde o lixo é separado, prensado e vendido para ser reciclado.

Era quarta feira e lá estava eu, fotografando todo o pessoal da cooperativa durante o trabalho, quando tropeço em uma caixa e escuto alguns latidos bem baixos. Quando abro, encontro seis cachorrinhos com poucos dias de vida. Um deles logo me chamou mais a atenção, fiquei apaixonada logo de cara e depois que terminei de fotografar tudo o que precisava, voltei na caixa, peguei o filhotinho e fiquei brincando.

Um dos funcionários da cooperativa, o que cuida de todos os cães que moram por lá (Cerca de 10 adultos e, na época, 10 filhotes), me viu e disse “olha só, ele deu muito certo com você! Ele é meio na dele, não é de dar muito carinho, mas já tá até te lambendo”. Depois de alguns minutos ele voltou e disse “Olha, se você quiser, pode ficar com ele. Deu pra ver que vocês dois deram muito certo”.

A testa do Dylan sempre ficava franzida de um jeito que parecia preocupação, um jeitinho meio pidão, e acho que foi uma das coisas que mais me fez apegar nele nesse primeiro contato. Quando ele chegou aqui em casa, estava cheio de pulgas, piolhos e carrapatos, tinha doença de pele que foi transmitida pela mãe durante a gravidez e estava cheio de vermes. Mesmo assim, ele era tão alegre, que parecia ser o cachorro mais saudável do mundo.

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Lembro como se fosse hoje da primeira noite dele em casa. Ele convivia com outros 20 cachorros, nunca tinha ficado sozinho na vida e de repente, estava ali, de madrugada, tudo escuro e sem ninguém pra brincar. Não deu outra, ele chorou a noite inteira, só parou quando eu fiquei com ele durante duas horas e quando não aguentei mais o sono, tirei minha camiseta e enrolei nele. Não é que ele já tinha se acostumado com meu cheiro e dormiu em cinco minutos?

Nos primeiros dias ele não sabia como beber água na tigela, a gente tinha que descer um pouquinho a cabeça dele até a água pra ele conseguir beber, mas ele sempre aprendeu tudo muito rápido! Só fazia xixi no jornal depois de duas semanas, sem nenhuma ajuda desses produtos com cheiros que os veterinários recomendam.

Ele é extremamente carinhoso, é ainda mais brincalhão e um pouco exagerado, por isso, algumas brincadeiras acabavam deixando alguns arranhões. Sempre adorou andar de carro, fica sentado no nosso colo observando tudo que passa pela janela (mas não gostava de colocar a cabeça pra fora, como alguns cachorros adoram).

Na hora de passear, a gente pena um pouco, ele é muito forte e acaba puxando bastante. Ele sabe exatamente quando eu chego da faculdade e se ao sair do elevador eu não abrir a porta em dez segundos, ele começa a chorar. O nosso passatempo preferido é: eu sento no chão com perna de índio e ele fica no meu colo, cada um fazendo suas coisas – ele mordendo algum brinquedo ou dormindo e eu lendo ou mexendo no celular. Nessa, a gente ficava por horas.

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Ele acabou crescendo muito e mais rápido do que a gente esperava. Em quatro meses ele já se apoiava na minha cintura quando ficava em cima das patas traseiras. Foi aí que começaram os problemas…

Eu moro em apartamento e, como eu disse antes, o Dylan é muito brincalhão e adora investigar tudo. Como ele já estava grande, começou a alcançar os vasos de plantas da minha mãe e não pensava duas vezes antes de espalhar quilos de terra pela casa toda. Ele desfiou o sofá de tecido da sala, comeu meu cartão de crédito, minha carteirinha de passe de ônibus e meu cartão de memória (nele tinha um documentário que eu tinha que entregar na faculdade em duas semanas – eu não tinha uma segunda cópia). Ele comeu a agenda da minha mãe, roeu os pés da cadeira e rasgou o forro que fica na parte de baixo do sofá.

No final das contas, a gente percebeu que nossa casa era um lugar muito pequeno pra ele. Ele nasceu em uma chácara, faz parte da natureza dele correr quilômetros por dia e isso era uma coisa que a gente, por mais que desse todo o amor do mundo, não poderia proporcionar. Com o tempo, isso foi o afetando. O Dylan passou a ter o olhar triste e a cada dia ele parecia ter mais energia e mais vontade de correr e brincar.

Um dia, meus pais decidiram que não conseguiam mais manter ele aqui. No fundo eu sabia disso há algum tempo, mas não queria admitir, porque se eu admitisse, o Dylan iria embora. E ele foi.

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Hoje, ele está morando na chácara de um amigo da família, com outros cachorros tão brincalhões quanto ele e sendo muito bem cuidado pelo pessoal que mora lá. Deixar um ser vivo que a gente ama ir embora é a coisa mais dolorosa que existe.

Sei que ele está em um lugar muito melhor pra ele e nem por um dia deixo de pensar naquele bichinho. O Dylan me ensinou a ser mais cuidadosa, responsável, carinhosa e paciente. Me ensinou mais sobre o amor, sobre a lealdade e amizade.


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Bruna Alecrim

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